
O dia todo cinzento, mesmo com as investidas do sol em roubar a cena e romper com a chuva que molhava Santa Maria, o domingo continuou nublado, com a cor de outono no inverno. Viajei até a cidade coração do Estado para fortalecer meu compromisso com o Movimento LGBT do Rio Grande do Sul. O domingo era de Parada Livre, ato de gente corajosa que não tem medo de mostrar a sua forma de ver o mundo e lutar pelos seus direitos, principalmente, contra os atrasos e a amargura que o preconceito carrega deixando marcas profundas em suas vítimas. Após um café da manhã saboroso no Hotel Morotin e a companhia de pessoas que estão deste lado, do lado do bem, participei de uma palestra que trouxe à tona a prevenção contra o HIV/Aids. Da necessidade de encarar essa doença buscando apoio de órgãos e instituições que desenvolvem projetos e programas sociais para quem precisa de atendimento médico. Outro fator que entrou em discussão refere-se às agressões que travestis, gays e demais pessoas que não escondem a sua identidade e opção sexual sofre em seu dia a dia, muitos já foram brutalmente assassinados. Cada vez mais me convenço da necessidade de políticas públicas para esse setor que não fiquem apenas no papel, mas que de fato, sejam fiscalizadas de perto.
Agora na reta final de campanha, os dias se tornam como o último domingo, longo marcado por encontros, reuniões, atos e fortalecimento direto de tudo que até aqui foi proposto. Porém, ontem, quando me dirigia para mais um compromisso na agenda de Santa Maria vi o quanto a vida é breve, como tudo pode acabar num piscar de olhos, num segundo e o quanto precisamos ainda aprender amar. Um acidente envolvendo meu carro, na Rua 19 de Novembro, esquina com a Avenida Nossa Senhora Medianeira, por pouco não se tornou algo mais sério, após um Siena acertar em cheio a traseira do meu veículo e, consequentemente originando a batida num Scort que tentava uma manobra arriscada naquele ponto. Três pequenas colisões, cinco pessoas envolvidas, três carros, todos sem ferimentos devido ao uso do cinto de segurança. “As coisas acontecem quando a gente menos espera”.
O que me chamou a atenção foi a demora no atendimento da BM para o registro da ocorrência e da Gerência de Trânsito de Santa Maria, que não tinha uma viatura disponível para prestar o serviço numa das principais vias da cidade, local de fluxo intenso e ininterrupto. Nessas horas é que questiono o investimento do dinheiro público. Pagamos tantos impostos para recebermos em troca um “nos desculpe, estamos sem viaturas disponíveis”. Em pleno século 21, os policiais militares fizeram o Boletim de Ocorrência à mão, numa cartilha longa para ser preenchida, mais que isso, o atendimento foi feito a cavalo naquela área tão perigosa da cidade. Por fim, enquanto a chuva continuava caindo do céu e o vento teimava em deixar o clima mais frio, fui até o Santuário de Schoenstatt para uns minutos de oração, agradecimento, meditação sobre essa fase da minha vida, as conquistas pessoais alcançadas, a proteção concedida nos momentos difíceis. Agora é continuar essa caminhada, olhando para frente, com entusiasmo e crença nos dias que virão.

